Orçamento de potência óptica: como calcular sem estourar o link
Um splitter a mais na cascata pode ser a diferença entre um cliente com sinal estável e outro que a ONU nunca autentica. Veja como fazer a conta do orçamento de potência óptica.

Orçamento de potência óptica: como calcular sem estourar o link
Um cliente novo mora a 4,2 km da OLT, no fim de uma cascata que já tem um splitter 1x8 na CTO da rua e vai levar mais um 1x4 dentro do prédio dele. No papel parece uma instalação qualquer. Na prática, se ninguém somar as perdas do caminho antes de vender o plano, o instalador só vai descobrir que o link não fecha quando a ONU não autenticar — com o cliente já em casa, esperando internet que ele pagou para ter. Orçamento de potência óptica é exatamente essa conta: quanto de sinal sai da OLT, quanto se perde no caminho, e quanto ainda sobra quando chega na ONU.
O que é, na prática, o orçamento de potência
É a diferença, em dB, entre a potência que a OLT transmite (Tx) e a sensibilidade mínima que a ONU consegue receber (Rx). Se a OLT transmite +5 dBm e a ONU precisa de no mínimo -28 dBm para funcionar, o orçamento total do link é de 33 dB — ou seja, o sinal pode perder até 33 dB no caminho inteiro (fibra, conectores, emendas, splitters) antes de a ONU parar de enxergar sinal. Esse valor varia conforme a classe de potência do equipamento GPON: a classe B+ trabalha com um orçamento em torno de 28 dB, e a classe C+ chega a 32-33 dB, o que permite redes mais longas ou com mais divisão de sinal.
Os componentes que consomem o orçamento
- Atenuação da fibra: em torno de 0,35 dB/km em 1310 nm e 0,25 dB/km em 1550 nm para fibra monomodo padrão ITU-T G.652D. Na prática, projetistas costumam arredondar para 0,4 dB/km como margem de segurança.
- Conectores: cada conector óptico (SC/APC, o mais comum em GPON) consome entre 0,3 e 0,5 dB, dependendo da qualidade da limpeza e do polimento.
- Fusões: uma fusão bem-feita custa entre 0,05 e 0,1 dB. Isso importa porque uma rede com muitas emendas em cascata soma perda rápido.
- Splitters: de longe o maior consumidor do orçamento. Um 1x2 consome cerca de 3,5 dB, um 1x4 fica em torno de 7,2 dB, um 1x8 em 10,5 dB, um 1x16 em 13,5 dB e um 1x32 chega a 17,5 dB — valores que já incluem a perda de inserção mais a perda intrínseca do componente.
Fazendo a conta de ponta a ponta
Pegue o exemplo do início: OLT classe C+ (orçamento de 32 dB), cliente a 4,2 km, um splitter 1x8 na CTO de rua e um 1x4 dentro do prédio.
1. Perda de fibra: 4,2 km × 0,4 dB/km = 1,68 dB
2. Splitter 1x8: 10,5 dB
3. Splitter 1x4: 7,2 dB
4. Quatro conectores no caminho (OLT, CTO, entrada do prédio, ONU): 4 × 0,4 dB = 1,6 dB
5. Três fusões: 3 × 0,08 dB = 0,24 dB
Total: 1,68 + 10,5 + 7,2 + 1,6 + 0,24 = 21,22 dB. Como o orçamento disponível é de 32 dB, sobram cerca de 10,8 dB de margem — dentro do razoável, considerando que boa prática recomenda manter pelo menos 3 dB de reserva para absorver degradação futura (poeira em conector, envelhecimento de componente, reparo malfeito). Se o mesmo cliente estivesse numa OLT classe B+ (28 dB), a margem cairia para 6,8 dB — ainda viável, mas com bem menos espaço para erro.
Quando o link não fecha
Se a soma das perdas ultrapassa o orçamento disponível, a ONU simplesmente não recebe sinal suficiente para autenticar — não é um problema de configuração, é física. As saídas mais comuns nesse caso são: trocar o splitter final por uma razão menor (de 1x8 para 1x4, por exemplo, sacrificando quantos clientes aquela porta atende), usar uma OLT ou SFP de classe de potência maior, ou reduzir o número de emendas no caminho revisando a rota. Não existe ajuste de software que resolva orçamento de potência estourado — o sinal físico que chega na ONU é o que é.
Erro comum: confiar só na régua de distância
Um mito recorrente em equipe comercial é achar que "perto da CTO dá certo, longe não dá" — mas distância sozinha não conta a história toda. Um cliente a 200 metros da CTO, atrás de um splitter 1x32 mal dimensionado com fusões malfeitas, pode ter orçamento mais apertado que um cliente a 3 km numa rota limpa com splitter 1x8. O que decide não é a régua, é a soma real de cada componente no caminho.
Ferramentas para medir na prática
- Power meter óptico: mede a potência real recebida na ONU, em dBm, e é o jeito mais confiável de validar se a instalação está dentro do esperado antes de liberar o cliente.
- OTDR (reflectômetro): além de medir perda, localiza em que ponto exato do cabo está um problema — essencial para diagnosticar rompimento ou fusão degradada sem precisar abrir cada caixa do trajeto.
- Estimativa da fusora: útil no momento da instalação, mas não substitui a medição fim a fim com power meter depois que tudo está montado.
Planejar antes de vender evita retrabalho
O orçamento de potência deveria entrar na conversa antes de fechar a venda, não depois. Quando o comercial sabe, no momento da proposta, quantos splitters existem no caminho até aquele endereço e qual a perda acumulada da rota, a instalação vira uma formalidade em vez de uma surpresa. É esse tipo de cálculo que separa um provedor que cresce sem dor de cabeça de um que vive apagando incêndio de ONU sem sinal.
O mapa precisa saber o que a fusora sabe
A conta do orçamento de potência só é confiável se alguém souber, de fato, quantos splitters, fusões e metros de fibra existem entre a OLT e cada cliente — e isso normalmente está espalhado entre a planilha de um, a memória de outro e a caixa de emenda que só o técnico mais antigo sabe abrir. O mapa de rede FTTH do ZISP guarda a topologia completa — rota, splitters, fusões e suas perdas — e usa esses dados para estimar o orçamento de potência de cada trecho antes de o técnico sair de carro, sinalizando quando uma instalação nova está perto do limite. Veja como funciona em sistema.zisp.com.br.